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"Poeta do mar": Carlos "da Apúlia" escreve uma vida de amor e poesia

  • Foto do escritor: Carlota Nery e Carolina Bastos Pereira
    Carlota Nery e Carolina Bastos Pereira
  • 9 de dez. de 2023
  • 3 min de leitura

Atualizado: 13 de jan. de 2024

Na vívida da paisagem da Apúlia, Carlos, pescador que se tornou poeta, deixou o seu testemunho em versos nas paredes de casa. Em mais de 50 poemas, não partilha apenas as experiências que viveu na guerra e a paixão pelo mar. Celebra, acima de tudo, um amor duradouro com a esposa, Celestina.

 

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Foto: Carlota Nery

Na praia de Cedovém, na Apúlia, uma casa exibe um aspecto modesto e as paredes desgastadas são marcadas por uma profusão de poemas. Os versos, espalhados por todos os cantos, contam a história de um casal, Carlos e Celestina.


Os instantes da sua vida foram eternizados em forma de versos por toda a sua casa. Uns falam dos dias de Carlos na guerra, outros da admiração e carinho que sente em relação ao mar. Mas em todos está presente o mesmo sentimento que, acima de tudo, conta, desejar eternizar: "o amor à minha mulher".


Carlos, pescador da Apúlia, lança o primeiro livro aos 83 anos, intitulado "Pescador que virou Escritor fazendo Poemas de Amor". A obra é uma coleção dos poemas que foi escrevendo ao longo da vida.


Depois de quase cinquenta décadas a escrever em diários e cartas, o livro dá a conhecer o amor que sente por Celestina e o mar: "Não havia mais nada a fazer. Gosto de poemas e gosto da Maria".


Entre páginas, deixa o testemunho da guerra colonial, as saudades de casa e outras experiências quotidianas. Desde viagens pelo mar, onde fez vida de pescador, até lembranças em África, Carlos nunca parou de rimar.


Quando era pequeno, não tinha dinheiro, teve de trabalhar desde cedo e, por isso, nunca aprendeu a escrever poemas. Mas o certo é que os escrevia, e acabou por retirar daí sustento quando era mais jovem. Mas a experiência também lhe trouxe um dia que recorda para sempre.


Costumava tocar guitarra e declamar poemas em casa de um comunista, para ganhar algum dinheiro. Um dia, conta, foi preso pela PIDE: "levaram-me para a esquadra, bateram-me e obrigaram-me a não voltar lá".


Sentia desejos de liberdade, antes do 25 de abril, e costumava refugiar-se na praia da Apúlia com um rádio, onde escutava a Portugal Livre, a rádio anti-regime que emitia em segredo de Bucareste. "Diziam que se a PIDE passasse batia-nos, por isso ouvia ao pé do mar".


Entretanto, foi enviado para o Ultramar. Em terra, não deixou só a profissão de pescador e cadernos com poemas e canções: deixou também uma namorada, Celestina, com quem trocava textos em forma de aerogramas. Por essa razão, mais que pescador ou soldado de guerra, intitula-se de poeta.


O casamento entre os dois ocorreu num período de opressão, antes do dia 25 de abril, quando a incerteza predominava e o retorno para casa era visto como uma bênção. No entanto, ri-se o casal, o segredo para uma relação duradoura é "não morrer de amores". "Eu gostava dele por causa das cartas que escrevia, mas pensava comigo mesma: 'se vieres vens, se não vieres, não vens'", diz Celestina.


Muitos pescadores e guerreiros do Ultramar direcionavam preces a Deus e pediam para serem levados de volta, ou apenas não morrer naquele lugar. Para Carlos, as rezas eram outras: "Minha Maria, estou a chegar, pensa em mim enquanto eu penso em ti para que eu tenha força para mais um dia. Estou cada vez mais perto de ti". Se, para uns, a fé em Deus era o que os mantinha vivos, para Carlos era saber que tinha Maria à espera. 


Os desafios de amar em clima de incerteza

Na região costeira da Apúlia, entre velhas casas e recantos de pescadores, esta história de amor permanece oculta. Ainda assim, em casa de Carlos, a questão sobre a viabilidade de manter um amor diante de múltiplos desafios é levantada com frequência.


À conversa com o VÉRTICE, Carlos lamentou a atual falta de compreensão sobre valores como o amor, o respeito e a dedicação. Criticou também a falta de perseverança nos relacionamentos contemporâneos, "porque os novos hoje não sabem mais o que é amor e respeito e esforço". Desabafa: "É uma pena que desistam logo. Dai Amor. Sem medo.”


Agora, aos 83 anos, Carlos está imerso na criação de um segundo livro, um romance ambientado nos tempos do Ultramar, que discorre sobre os desafios do amor entre um jovem moçambicano e uma médica portuguesa. Carlos está "ansioso" por publicar a primeira ficção, que tem lançamento marcado para o verão de 2024.

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