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25 de abril: as mulheres e a Revolução

  • Foto do escritor: Beatriz Magalhães
    Beatriz Magalhães
  • 27 de dez. de 2023
  • 5 min de leitura

Atualizado: 13 de jan. de 2024

A revolução que trouxe a esperança e a liberdade a Portugal também se escreve no feminino. A perspetiva de quatro mulheres sobre o pré e o pós 25 de abril.

O 25 de abril de 1974 abriu novos horizontes a Portugal, causando mudanças profundas no panorama político, económico e social nacional.

 

O papel da mulher não fica por contar. Orquídea, Georgeta, Branca e Pilar viveram o derrubar da ditadura de formas diferentes, mas sempre com a vitória da liberdade em mente. Estas são as suas histórias.


As condições precárias nas ilhas e bairros camarários


Orquídea Santos e Georgeta são cunhadas. Tinham 23 e 14 anos aquando da revolução, respetivamente. É na Associação de Moradores da Bouça, a qual Orquídea ajudou a fundar, que as memórias do panorama ditatorial se acendem.


Georgeta viveu num bairro camarário. Descreve o cenário do Estado Novo como "horrível" e de "miséria" - "Eu ainda sou do tempo de poder dizer que só se comia fruta ao domingo, porque não havia dinheiro para comer fruta durante a semana. E comer ao domingo já era muito bom, porque havia muita gente que nem isso tinha".

Eu nunca pensei que me iam mandar ter o filho em casa porque aquilo não era uma casa - Orquídea Santos, ex-operária

 

Os baixos rendimentos aliados às más condições de habitação tornavam a vida da população instável. Para ilustrar as dificuldades passadas, Orquídea conta a história do nascimento do seu segundo filho.

 

Quando deu à luz, estava em vigor uma lei que demandava  "quem andasse no médico, na segurança social, no centro de saúde" a ter o segundo filho em casa. Residente à altura numa ilha, Orquídea confessa que ficou surpreendida com a imposição – "foi muito caricato porque eu nunca pensei que me iam mandar ter o filho em casa porque aquilo não era uma casa".

 

Durante o parto, Orquídea teve de segurar uma "lâmpada que saiu do teto" para a parteira poder ter visibilidade.

 

Para além das complicações advindas da debilidade do espaço, ainda se somaram outras dificuldades – "é que ele nasceu com o cordão umbilical à volta do pescoço. Três voltas. Eu não suava nada, mas a senhora, coitadinha, transpirava por tudo quanto era sítio. Porque aquilo foi um suplício para ela, porque não havia ninguém para ajudar".

 

O parto acabou por se concretizar eficientemente, mas Orquídea relata ainda outra experiência insólita resultante desse momento - registou o nascimento do filho no dia seguinte para a parteira poder receber dinheiro pela realização do parto - "As parteiras naquela altura tinham direito a receber 500 escudos por um parto que faziam por dia. Podiam fazer cinco, mas não recebiam por cinco partos. Eu disse, senhora enfermeira, o meu filho nasceu à meia-noite e cinco. Vou-lhe dizer, foi das coisas boas que eu fiz na minha vida e que não estou arrependida. O meu filho nasceu dia 22 às 22 horas."

Se não fosse o 25 de abril nem estaríamos a ter esta conversa - Georgeta Santos

 

As más condições de habitação e qualidade de vida constituem um dos pontos mais marcantes de contraste com a democracia.


Quando questionadas sobre como definem o 25 de abril, a resposta sai em coro, "liberdade" – "Se não fosse o 25 de abril nem estaríamos a ter esta conversa", remata Georgeta.


Os movimentos estudantis e o papel da FEUP


Branca Gonçalves é engenheira química e frequentava a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto quando se deu a revolução.

 

Refere a abertura no acesso à educação como uma das vitórias de abril – "eu lembro-me que quando me formei, éramos 30 e tal alunos no meu curso, e depois aumentou exponencialmente, não é? Depois do 25 de abril começou a haver muito mais alunos na universidade. E, portanto, percebíamos que havia muitos mais alunos a frequentar. Foi um processo muito enriquecedor".

 

Quanto aos movimentos estudantis ligados à luta pela democracia, Branca refere a Faculdade de Engenharia como "pioneira", e descreve como o processo na mudança dos órgãos de gestão se deu na instituição de ensino.


Depois do 25 de abril começou a haver muito mais alunos na universidade. E, portanto, percebíamos que havia muitos mais alunos a frequentar. Foi um processo muito enriquecedor - Branca Gonçalves, engenheira

Na FEUP, na mesma semana da revolução de abril, deram-se de imediato eleições, que levaram à demissão do antigo diretor e à eleição do engenheiro Oliveiros Dias, do Partido Comunista.

 

Decorreram também segundas eleições como um "movimento transitório" e no ano seguinte deu-se a eleição de Raimundo Delgado, de 27 anos na época.

 

Os congressos de 1974 e 1975 para a mudança de gestão do instituto e mudança no sistema de ensino marcam assim o papel da Faculdade de Engenharia no panorama de abril.

 

Branca considera que as lutas estudantis foram "muito importantes", e fala do 25 de abril com ternura e um sorriso no rosto – "Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida".


Ser mulher em tempos de "Deus, Pátria e Família"


Pilar Gonzalez é professora de economia e tinha 19 anos em abril de 1974. Declara que um dos pontos de convergência que tinha perante o 25 de abril era a "vontade de termos as mesmas oportunidades".

 

Pilar vem de um agregado familiar de quatro irmãos, onde só existia um rapaz, que era o mais próximo de si em idade. Revela que as diferenças sentidas em relação ao irmão lhe causavam frustração – "Essa coisa começou a mexer cá dentro comigo, que é: como é que é possível? Quer dizer, a gente está na mesma casa, portanto, a gente tem as mesmas obrigações, do ponto de vista de estudar, etc. E, na verdade, é tudo tão mais difícil para mim por ser rapariga".

 

Conta que uma história que a marcou em concreto foi a da própria mãe.

A mãe de Pilar era transmontana, onde não existia ensino superior, e o seu sonho era estudar Belas Artes. O avô de Pilar tinha três filhas e apenas tinha possibilidades para que uma delas pudesse estudar no Porto, pelo que iria proporcionar essa oportunidade à filha que fosse melhor estudante.

 

"A minha mãe estudou que se matou para vir para o Porto estudar", relata Pilar, "e quando acabou o exame na quarta classe a minha avó estava grávida, nasceu um rapaz. O meu avô virou-se para a minha mãe e disse "agora escusas de te esforçar, o curso é para o rapaz". E, portanto, a minha mãe ficou sempre marcada por essa coisa".

O meu avô virou-se para a minha mãe e disse "agora escusas de te esforçar, o curso é para o rapaz" - Pilar Gonzalez, professora

Além de ver o seu futuro académico ser-lhe barrado, a mãe de Pilar foi ainda obrigada a parar de trabalhar devido ao seu casamento – "ela casou com o meu pai, que era espanhol, e quando ela se casou perdeu a nacionalidade. Foi obrigada, ao casar com um estrangeiro, a adquirir a nacionalidade do marido e, portanto, ela era funcionária pública, trabalhava nos correios, mas como ficou espanhola, teve de deixar de trabalhar. Portanto, ela própria tinha esta vida completamente marcada pelo facto de ser mulher. As oportunidades foram-se-lhe fechando".

 

A emancipação feminina decorrente da Revolução dos Cravos manifestou alterações profundas na sociedade portuguesa e constitui "uma das grandes conquistas" da época. Para Pilar, o 25 de abril é "liberdade e alegria".

 


Fotografias de Beatriz Magalhães, animações por Carolina Bastos Pereira

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