Este país não é para velhas
- Tiago Lima
- 2 de jan. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 13 de jan. de 2024
Opinião de Tiago Lima, estudante de Ciências da Comunicação.
Será que numa sociedade ocidental, que caminha para o futuro de mãos dadas com o envelhecimento, é assim tão necessário descartarmos os mais velhos? De uma perspetiva (demasiado) jovem e de um verdadeiro integrante da “Gen Z”, parece-me que é cada vez mais ignorante o crescente etarismo que ponteia a atualidade.
Sendo a igualdade de género um dos maiores “prós" da sociedade humana, a questão do etarismo ganha uma dimensão diferente no que toca ao mundo feminino. Antes de mais, convém perceber do que se trata o etarismo, este novo conceito "woke", já presente nos dicionários.
Uma breve pesquisa, num destes objetos tão rudimentar como aquele que é o dicionário, permite-nos classificar o etarismo como uma "atitude preconceituosa e discriminatória com base na idade, sobretudo em relação a pessoas idosas". Ou seja, a ideia de que se pode criticar e discriminar alguém, simplesmente devido à sua idade. Um termo, lá está, que surge mais associado à discriminação contra os mais velhos.
Nos homens, a idade parece surgir como um benefício, tal como no vinho ou no queijo. Quanto mais envelhecido, melhor. Mais sábio, com mais cultura e experiência, mais charmoso. Já nas mulheres, a idade surge quase como uma maldição. Uma maldição inevitável que atormenta qualquer menina que sabe que eventualmente irá envelhecer. Com este prenúncio de uma tragédia certa, rugas e linhas de rosto vincadas, a mulher vê-se de caras com um enorme desafio: como envelhecer?
Nos homens, a idade parece surgir como um benefício, tal como no vinho ou no queijo. Quanto mais envelhecido, melhor.
Uma coisa é certa, há vários caminhos que a mulher pode tomar. O problema está no facto de uma sociedade misógina, preconceituosa e marcada pelo patriarcado se sentir na obrigação de julgar e analisar todos estes caminhos que a mesma pode tomar no processo de envelhecer.
E quando se fala em vários caminhos, não me parece que exista apenas um determinado caminho que cada mulher deva seguir, de forma rígida. Se recorrer a procedimentos estéticos, continuar a pintar o cabelo e usar roupa acima do joelho vai ser apelidada de, por exemplo, "boneca sexual", termo usado pelo famoso apresentador de televisão britânico Piers Morgan para descrever Madonna. Vai ser acusada de querer ser jovem para sempre e não querer assumir a idade que tem.
Se, por outro lado, decidir deixar de pintar o cabelo ou não usar maquilhagem vai ser vista como alguém que se desleixou, que "envelheceu mal". Pode até não ser relacionado com a aparência. Uma mulher que se mantenha ativa relativamente a causas políticas ou sociais é uma mulher que "não sabe sair de cena”, alguém que já não tem idade para "estas figuras".
O mais curioso e particular, interessante até, é o facto de este escrutínio e estas críticas ganharem uma relevância tão grande relativamente às mulheres, tendo como termo de comparação os homens. As mesmas atitudes e comportamentos são vistos através de óticas diferentes, tendo em conta o visado (homem ou mulher).
Uma mulher que se mantenha ativa relativamente a causas políticas ou sociais é uma mulher que "não sabe sair de cena”, alguém que já não tem idade para "estas figuras".
Se o Mick Jagger e os Rolling Stones ou o Elton John anunciarem mais uma tour são a prova da irreverência e da intemporalidade e da jovialidade. Já se a Cher anunciar uma nova tour é uma velha mulher, com aspeto artificial, que não sabe quando sair de cena e quando se reformar. Surgem elogios quando Iggy Pop se apresenta em palco sem camisola, mas chovem críticas quando Madonna canta "La Isla Bonita” com uns calções curtos e um soutien push-up.
A estrada que leva uma mulher até ao envelhecimento é sinuosa, com curvas apertadas, precipícios à espreita e com muitos sinais de "perigo de derrocada". Sem dúvida uma maldição. Aqueles que são os anos da vida de uma pessoa associados ao descanso e ao lazer, são também os anos em que se sente um enorme preconceito pelo facto de existir algo tão simples e natural como o envelhecimento das células humanas. No fundo, todos já dissemos "está bem conservada para a idade que tem"
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