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"Já foi!": 50 anos "depois do adeus" ao Estado Novo ainda se conta a história

  • Foto do escritor: Carolina Bastos Pereira
    Carolina Bastos Pereira
  • 30 de dez. de 2023
  • 5 min de leitura

Atualizado: 13 de jan. de 2024

A revolução dos cravos celebra este ano meio século, mas está ainda bem presente na memória de António Costa e Antero Ribeiro da Silva, dois militares que, em partes diferentes do país, participaram no golpe.



Foi por apoiar a revolução que António Costa, natural de Braga, escapou ao Ultramar. Ou pelo menos assim acharam os comandantes da base de Mafra, onde cumpria o serviço militar em março de 1974.


Tinha 21 anos e tinha sido destacado para África, mas alguns superiores, apoiantes de uma conspiração já há alguns meses organizada, tiraram o seu número do centro de mobilizações. A razão era só uma: António tinha "fugido" para França, onde viveu antes de voltar e ser alistado.


"Eles consideraram que não concordava com o sistema", mas a verdade era outra: "Não foi por isso que eu fui. Precisava de ganhar dinheiro, porque cá não havia nada, não foi muito por causa do regime", conta.


No entanto, quando um alferes com quem tinha uma forte amizade lhe "confessou que iam fazer uma revolução". António entusiasmou-se com a ideia e, embora com receio, não hesitou: "Se é para ir, vamos lá!".


O motivo do descontentamento era, maioritariamente, o Ultramar, que "mobilizava os jovens todos", e para onde se canalizava "o rendimento daqui": "ficava-nos muito cara, e aqui passava-se mal", comenta António.


Mas esta conversa com o alferes só aconteceu em finais de março. Antes disso, tinha já ocorrido a Intentona das Caldas, a tentativa de revolução que fracassou a 16 de março desse ano, e para a qual António avançou sem qualquer luz sobre o que ia acontecer.


"Os comandantes não nos disseram nada, só nos mandaram ir para Lisboa, mas quando estávamos já a chegar à Malveira recebemos uma comunicação a dizer que a Intentona tinha abortado, e para regressarmos ao quartel sem fazer barulho".


Se à primeira não deu certo, o medo de António só aumentava à medida em que se planeava uma nova investida, por saber que iam "para um guerra, e na guerra há tiros". No entanto, reconhece, "nós também tínhamos algumas armas pesadas, levamos um canhão, e podia ter dado para muito mal, se abrisse fogo era forte e feio, havia anti-aéreas nos telhados de Lisboa".


Estavam num café de uma aldeia perto de Lisboa, a ver o jogo do Sporting contra o Magdeburgo nas meias-finais europeias, quando, no rádio que levaram com eles, os militares ouviram o pré-sinal, às onze da noite do dia 24. "Ainda hoje me arrepio todo", emociona-se António, "era a E Depois Do Adeus, e mandaram-nos então vir embora".


Quando, já perto da meia noite, se escutou "Grândola, Vila Morena", Lisboa foi invadida por militares. António ficou no Rádio Clube Português, que foi tomado de assalto. "Os jornalistas foram todos afastados, só ficou um, que já sabiam que era confiável, e ele é que lia os comunicados das Forças Armadas (FA)".


Durante várias horas, a rádio "só passava música, e de vez em quando um comunicado das FA". O medo persistia, mas a uma determinada altura a revolução estava feita, e já não havia volta a dar: "mesmo não correndo bem, não havia hipóteses de voltar atrás, porque teriam de se virar contra o povo: nós estávamos sempre rodeados de povo".


Em Lisboa, era agora "uma grande festa", e para o jovem militar, que esteve na capital até ao primeiro de maio, "foi uma semana extraordinária". Era como uma vedeta, e por isso muitas mulheres queriam ser fotografadas ao seu lado, ofereciam-lhe coisas na rua e, embora os tropas não tivessem "dinheiro nenhum" e dormissem, por vezes, "numa carrinha", onde quer que entrassem "estava sempre tudo pago".


"O soldadinho não volta do outro lado do mar"

Cantava assim José Afonso, e era isso mesmo. Seguia já a festa pela manhã, em Lisboa, quando um camarada veio aos pulos acordar o coronel Antero Ribeiro da Silva. "Já foi, já foi!", gritava, e o coronel não conseguia compreender.


Nascido no Porto, Ribeiro da Silva conspirava há algum tempo contra o regime em pequenas reuniões - a primeira aconteceu "num monte alentejano perto de Évora, e comemorou há pouco tempo cinquenta anos" -, que começaram a aumentar cada vez mais, e que acabaram por levá-lo a envolver-se na Revolta das Caldas.


Não tinha medo de espalhar a palavra proibida, revolução, porque, embora nunca tivesse a certeza de quem estava do seu lado, "era um risco que tinha de ser corrido". Nas reuniões, "chegou-se à conclusão que não se podia pôr um fim à guerra sem derrubar o regime".


Fez três sucessivas em Moçambique - a última já na descolonização -, e acredita que "os militares eram mais sensíveis a este assunto, especialmente os comandantes", pelo que se revoltavam cada vez mais contra o governo. "Estava farto de ver morrer gente à minha volta", recorda.


Estava na Madeira no dia 25 de abril, e acredita que não era por acaso: era "compulsivamente" enviado para lá, e no mês da revolução não o deixaram embarcar para o continente.


Acredita ter sido alvo - juntamente com os militares Vasco Lourenço e Carlos clemente, que estavam nos Açores -, de uma cilada. "Andamos fugidos um dia, 'raptados' pelo MFA, que não nos deixou embarcar", já que "algum camarada nosso - e não foi provavelmente com má intenção, mas sim no sentido de honestidade para com o seu comandante - transmitiu-lhe coisas que nos colocaram em xeque".


A informação que recebia no Funchal era escassa, e por isso "não sabia exatamente o dia em que ia acontecer a revolução", mas foi por estar na Madeira, onde ficou por mais um mês, que pôde ter uma experiência diferente na ilha: foi carcereiro de Américo Tomás e Marcello Caetano.


Com Marcelo Caetano, que visitava para dar refeições e correio, teve ainda algumas conversas, porque, comenta, "conversava-se bem com ele, era um homem com alguma dignidade, apesar da condição em que se encontrava".


Marcou-o um diálogo em concreto que teve com o deposto Presidente do Conselho de Ministros, em que este comentou: "jovem capitão, não sei se vocês vão aguentar o desenrolar do processo".


50 anos depois, "as pessoas estão embrenhadas na democrcia"

Passaram-se 50 anos. António Costa tem agora 71, e vê como uma das principais vantagens da revolução uma maior instrução da população: "É por estarem informadas que as pessoas não voltam a deixar que aconteça nada parecido com o Estado Novo, tenho a certeza", garante.


Ribeiro da Silva, presidente da região norte da Associação 25 de Abril, faz 79, e prepara agora as comemorações do meio século da revolução. Lamenta, apesar de tudo, ter "pouco trabalho", já que "o tempo passa, e a chama não se mantém sempre viva, as pessoas vão envelhecendo".


No entanto, tem visto muitos jovens nas celebrações da efeméride, todos os anos, e acredita que "as pessoas estão embrenhadas na democracia", e, portanto, não voltam a admitir uma ditadura de qualquer tipo.


António Costa e Antero Ribeiro da Silva são dois homens que, embora separados por vários quilómetros e categorias hierárquicas, fizeram a revolução, e usaram cravos nas espingardas. Não acreditam num fim da democracia, mas sabem que é importante contar a história.






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