A paz, o pão, um T0, horas nas urgências e uma propina em atraso
- Carolina Bastos Pereira
- 19 de dez. de 2023
- 2 min de leitura
Atualizado: 13 de jan. de 2024
Opinião
Devia ter uns 5 anos. Os CDs estavam já riscados, oferecidos há uns anos por amigos aos meus pais que, com um brilhozinho nos olhos, bradavam sempre que o Porto estava ali tão perto, e eu infantilmente calculava a distância pelas músicas e não me parecia que o Porto estivesse assim tão perto: por vezes, se houvesse trânsito, tínhamos até de trocar o CD.

Quando chegávamos ao estacionamento o meu pai tirava o ticket mesmo no final da última música, que era tão invariavelmente a mesma quanto o meu choro porque não tinha passado exatamente essa música. Então, lembro-me como se fosse hoje, já com o carro estacionado, sentávamo-nos a acabar de escutá-la, e eu ria-me do paradoxo da canção, porque esses dias eram todos os primeiros do resto da minha vida, explicava a minha mãe, e dizia que era mesmo assim o Sérgio, dizia as coisas que nós não sabíamos dizer, mas que era mesmo isso.
Almoçávamos e a sobremesa era sempre a dividir, que assim se cortava no açúcar e na conta. Às vezes eu dizia que queria morar ali mesmo, em frente ao Coliseu e às coisas grandes, e o meu pai ria-se e dizia que ninguém morava à frente do Coliseu e eu acreditava que era porque quando o Sérgio Godinho tocava lá fazia muito barulho, e ainda hoje me comove essa explicação, porque ainda hoje ninguém vive à frente do Coliseu.
Ontem à tarde fui às compras, empurrava o carrinho e dei por mim a trautear que “já que a vida é feita de pequenos nadas, guarde-me aí quatro ou cinco, que é para quando for domingo eu os poder saborear”. Mas o carrinho já estava cheio, pensei na conta, e uns quatro ou cinco nadas afinal pesam como tudo, é melhor deixá-los na prateleira.
É hoje o tempo do Sérgio, como já o era há quinze anos quando o meu pai, cansado, comia depressa uma francesinha, a pensar no preço do parque (Caramba!), e como o foi há cinquenta anos, quando se soltava a torrente que estacava a sede de uma espera.
A verdade é que, cinquenta anos volvidos, a cultura está deserta, porque é entre ela e uma propina, e os restaurantes só servem francesinha aos camónes e cerveja a nós, amigo, que a força, essa, que trazes nos braços, só te manda obedecer e beber uns copos aos sábados.
Somos portugueses, queixosos incorrigíveis, mas hoje, para evitar que nos ponham por umas boas horas na fila interminável das urgências, quando nos perguntam como vamos, o melhor será sempre responder que cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas.
Comentários