A Invicta também cai, mas sabe agora reerguer-se
- Jornal Vértice
- 13 de jan. de 2024
- 2 min de leitura
Editorial.

As Ilhas do Porto foram criadas no século passado, numa altura em que, nas grandes cidades, ainda havia muitas famílias operárias a dividir apartamentos, por não conseguirem suportar o valor das rendas.
A solução foi a criação de pequenos blocos, espécie de celas, sem casas de banho, com uma fachada de liberdade conferida por um pátio comum onde, resignadas, as pessoas riam e conversavam sobre assuntos quotidianos.
Ao longo dos anos, a cidade foi crescendo, mas as ilhas, as centenas de complexos que contêm cerca de 10 casas cada um, mantiveram sempre erguida a bandeira alegre que tinham hasteado. Tornaram-se um símbolo: a cidade evoluiu, mas as ilhas não.
As pessoas envelheceram, e hoje moram nesses complexos maioritariamente idosos, sem família: precisam da vizinhança, porque se conhecem e são o suporte uns dos outros. O bairrismo surge, então, mais como uma necessidade do que como uma característica intrínseca dos portuenses, ao contrário do que fazem crer os filmes e as revistas.
Até ao atual mandato da Câmara Municipal, as ilhas foram o “patinho feio”, até romantizável - a terrível romantização da miséria - , de uma cidade “muy nobre” e invicta. Mantiveram-se à sombra de uma Domus Social que descartava as raízes - veja-se a solução que se deu às torres do Aleixo, demolir - , uma Domus Social que “deitava abaixo” e construía roboticamente noutras partes, sem sinalizar os habitantes que, separados uns dos outros, separavam-se também do resto da cidade, criando um fosso de discriminação (“esse aí veio do Aleixo”).
Mas os tempos mudam, as vontades também, e a nova Domus Social tirou o pano que cobria as ilhas há um século. São formatos muito diferentes de bairros sociais: não são camarários, há pouca indigência, mas péssimas condições. A discriminação mantém-se, mas Rui Moreira quer varrê-la. É impensável que, em formatos habitacionais onde vive 5% da população da cidade, apenas 17% das casas reúnam condições dignas. A Câmara Municipal sabe-o e quer mudá-lo, mantendo a dinâmica dos espaços inalterada.
Há falhas, como em tudo: há desinformação dos moradores, há proprietários cujos interesses falam mais alto, há os velhos do restelo, que “estão muito bem” com água a cair do teto, porque têm medo da mudança, há falhas de comunicação e incerteza.
Mas uma verdade subleva-se: para construir uma política habitacional coesa, é preciso sentir o pulsar da cidade, fazer um trabalho de aproximação, que está agora a ser desenvolvido como nunca. As cidades não são mecânicas, e não se podem construir arranha-céus se a cidade tem vertigens.
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