Aumenta em influência e adesão: porque é que a extrema-direita está de volta ao mapa mundo?
- Luizi Duarte
- 26 de dez. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 13 de jan. de 2024
No cenário político global, tem-se destacado uma tendência nos últimos anos: o crescimento da influência e representação da extrema-direita em diferentes países, o que tem originado debates sobre as suas causas e consequências.
A vitória de coligações e candidatos de extrema-direita em eleições recentes na Europa marcam um ponto crucial. Na Itália, a chegada da coligação de extrema-direita ao poder, liderada pela primeira-ministra Giorgia Meloni, do partido Fratelli d'Italia (Irmãos da Itália), sinaliza um movimento baseado no euroceticismo, políticas anti-imigração e propostas que desafiam direitos sociais e individuais.
Eventos paralelos na Alemanha e nos Países Baixos também ecoam esse fenómeno. A vitória de Tim Lochner, representante da Alternativa para a Alemanha (AfD), em Pirna, bem como o avanço do Partido da Liberdade nos Países Baixos, reflete uma insatisfação pública que se traduz em apoio a plataformas de extrema-direita. Esses triunfos ocorrem no cerne de um descontentamento popular com políticas atualmente em vigor, como medidas ambientais e a atual gestão governamental.
Esses resultados eleitorais não são casos isolados. Projeções para as eleições europeias indicam um possível recorde histórico de representação da extrema-direita no Parlamento Europeu, revelando uma tendência ampla e crescente.
Análises realizadas por instituições especializadas, como a Europe Elects, apontam para um aumento significativo na possível presença de partidos de extrema-direita no Parlamento Europeu. O partido político europeu Identidade e Democracia (ID), que agrega diversos partidos de extrema-direita, poderia alcançar um acréscimo de 14 lugares, somando um total estimado de 87 assentos.
Esta projeção, se confirmada, seria um marco histórico na dinâmica política europeia, já confirma um avanço substancial dessas ideologias no cerne da tomada de decisões no Parlamento.
Os debates em torno desse fenómeno têm-se intensificado. Analistas políticos apontam para a crise económica global de 2007/08 como um ponto crucial, onde políticas de austeridade afetaram drasticamente as camadas sociais menos favorecidas, alimentando um sentimento de desilusão e desconfiança nas estruturas políticas existentes.
O investigador, filósofo e analista geopolítico Carlos Hortmann, num artigo que escreveu para o PÚBLICO, pontua que "As contínuas crises sociais e económicas, os ciclos de 'estabilidade' política cada vez mais curtos, um rol de contestações e revoltas, nos indicam um esgotamento do sistema político liberal." Hortmann destaca a complexidade do cenário, apontando para uma série de fatores interconectados que contribuíram para a ascensão da extrema-direita.
Essas considerações de Hortmann ecoam diante das manifestações de apoio à extrema-direita, que levantam questões complexas. A aparente contradição entre a mobilização por questões como as mudanças climáticas e o apoio a partidos que minimizam tais problemas ilustra a fragmentação e a complexidade do cenário político atual.
A ascensão desse movimento ganha novo destaque com a recente vitória de Javier Milei na Argentina. O economista ultraliberal, que prometeu mudanças radicais nas políticas econômicas, foi eleito presidente do país, gerando surpresa e reações diversas. O novo presidente argentino adotou na campanha planos de abolir o Banco Central e adotar o dólar dos Estados Unidos como moeda nacional, ecoando discursos de ruptura.
A admiração declarada por Milei a figuras como Donald Trump e as congratulações de líderes internacionais como Jair Bolsonaro destacam a projeção global desse movimento político na América Latina.
No âmbito nacional, Portugal também experimenta essa ascensão. O aumento de significância do partido Chega! nas eleições legislativas, com um discurso de teor nacionalista e conservador, adiciona mais um elemento a essa discussão, mostrando que essa tendência não se limita a determinadas regiões do mapa-mundo.
O Chega! foi o terceiro partido mais votado nas eleições legislativas de 2022, um resultado surpreendente que chamou a atenção de observadores internacionais. Heidi Beirich, cofundadora do Global Project Against Hate and Extremism (GPAHE), expressou surpresa em entrevista à EURONEWS: "Houve muitas pessoas que não se aperceberam que a extrema-direita tinha um apoio tão grande em Portugal, porque historicamente, desde o fim da ditadura em 1974, não tem sido esse o caso."
No entanto, o surgimento dessa onda de apoio à extrema-direita não é apenas um fenómeno político, mas também social e económico. Questões de identidade nacional, migração e globalização alimentam os discursos defendidos por aqueles que adotam a posição mais conservadora.
Enquanto muitos observadores veem nesses movimentos uma rejeição às políticas estabelecidas e uma busca por alternativas, alguns analistas e críticos alertam para os perigos de agendas que minam direitos humanos e a coesão social.
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