Mário Augusto: "A minha carreira faz-se de sortes múltiplas"
- Jornal Vértice
- 7 de jan. de 2024
- 17 min de leitura
Atualizado: 11 de jan. de 2024
Desde a estreia "macabra" na televisão ao convívio próximo com grandes estrelas de cinema, Mário Augusto soma mais de quarenta anos à frente de microfones, câmaras e passadeiras vermelhas. Passou por dezenas de órgãos de comunicação social, e ajudou a fundar alguns, como a SIC e a Rádio Nova. Ao longo da vida, fez mais de 2 mil junkets - idas a Hollywood para entrevistar artistas em estreias -, mas nunca quis sair de Espinho, a cidade por onde se apaixonou pelo cinema.
No escritório dos estúdio da RTP, recheado de posters de filmes, onde ecoa sempre uma banda sonora cinematográfica, conta agora ao VÉRTICE histórias dos junkets, em que se sentava à mesa com Tina Turner, e como teve uma vida profissional recheada de "sorte, talento e trabalho".

VÉRTICE: Começou a interessar-se por cinema em adolescente, devido não apenas a um professor que falava de filmes, mas também ao festival Cinanima, realizado em Espinho, onde nasceu e ainda mora. Aí, já tinha interesse pela comunicação, ou o cinema veio primeiro?
Mário Augusto: Eu acho que veio primeiro o cinema de animação. A comunicação veio também na mesma altura porque eu tinha um professor de português que tinha um jornal regional e uma vez convidou-me para escrever um artigo, quando tinha uns 17 anos. Eu fiz essa reportagem e achei muita piada àquela coisa de escrever numa redação, publicar num papel.
Mas a comunicação como profissão surge em consequência do cinema. Porque como eu fazia parte da comissão organizadora do festival Cinanima e fazia parte do gabinete de imprensa, acabei por ter de escrever press releases, ir falar do festival à radio e televisões. E, curiosamente, há um dado colateral muito engraçado: o gabinete de imprensa daquela altura, no início dos anos 80, ajudou a formar uma série de pessoas que tiveram a sorte de poder fazer coisas nesta área, como o Luís Costa ou o David Pontes. Mas foi por aí, foi uma relação causa-consequência.
V: E gosta mais de falar ou de escrever?
MA: Eu hoje gosto mais de escrever, houve uma fase em que apurei muito a técnica de escrita para falar e gosto muito ainda de fazer voz off. Eu entrei na Força Aérea em 1982, e quando lá cheguei eles punham alguns jovens a fazer voz-off para testar, para ver se dava para fazer documentários, coisas da tropa.
E na altura eles puseram-me a ler um texto ao microfone, eu já tinha experimentado fazer coisas na radio por causa do festival, e deram-me um texto, eu li, e não sei se por simpatia ou por "vamos despachar este que já está aqui a mais", disseram que tinha um timbre engraçado, e se tivesse alguém que me tirasse a pronúncia do Porto - eu falava muito à Porto, porque nunca tinha saído daqui - era bom.
E eu tinha conhecido uma pessoa da rádio com quem me tinha cruzado em circunstâncias completamente diferentes da comunicação, o Carlos Ribeiro, que trabalhava na Rádio Comercial, liguei-lhe e ele ajudou-me. Comecei a achar piada a isso, mas confesso que hoje, de há uns anos a esta parte, gosto muito mais de escrever, porque escrever para ler, ou para televisão ou rádio, é completamente diferente de escrever para papel.
V: É limitador?
MA: Não, são técnicas completamente diferentes. Eu, durante muitos anos, escrevi para televisão e para rádio sem sequer escrever para papel e quando se escreve para televisão ou rádio não há um controlo, nós depois tomamos conta da cadência do texto, a pontuação, entoação, quebras de textos, respirações, isso depois são técnicas que se vão apurando e não é a Universidade que nos ensina, é o processo de fazer.
V: O que é que levou a essa transição e gostar mais de escrever agora?
MA: Porque eu trabalhei nos jornais durante uns anos, aliás, comecei como jornalista num jornal que já não existe, que era o Comércio do Porto, também por uma série de acasos muito engraçados: uma pessoa que lá trabalhava era responsável por uma secção e disse-me: "não queres começar a escrever lá umas coisas?". E a uma dada altura já estava a ir lá todos os dias e a fazer coisas e trabalhar na Avenida dos Aliados.
Mas confesso que é muito mais difícil escrever para imprimir ou para online, porque tem de se ter outros cuidados, e eu como tinha explorado muito a técnica de escrever para mim, para eu ler, tinha erros básicos de escrita que resolvia na leitura, porque não tinha que ter essa preocupação ou cuidado com a pontuação, com as palavras...porque ao ler tira-se sempre palavras que lá estão e põem-se outras.
Portanto, nunca tive esse cuidado e não tinha, se calhar, tanta confiança para escrever. Mas escrever mesmo foi quando uma vez me convidaram para escrever um livro. Pensei: "Um livro? Que cena! acho que não consigo", e na altura confesso até que tinha tão pouca confiança no que poderia fazer que escrevi e depois dei a ler, pedi a um revisor para ver se estava tudo bem, discutia com as pessoas que tinham mais experiências nessas áreas o jogo das palavras…
V: E é muito disciplinado? Gosta de trabalhar das 9 às 18h?
MA: Quando tenho de escrever um livro sou indisciplinado até ao momento em que começo. A partir do momento em que começo, sou muito disciplinado. E tenho de momento um caso concreto: eu tenho um livro para fazer neste momento, que está adjudicado e contratualizado, e tenho que o entregar em março…ainda não o comecei. Mas sei tudo o que tenho de fazer, vai chegar um dia, daqui uma, duas ou três semanas em que já não dá para esperar mais e digo "é agora!" (risos). E, quando começo, deito-me a pensar naquilo, acordo de madrugada a pensar naquilo, e sai em jorrada, sai tudo, escrevo e desenvolvo e depois revejo tudo e ando ali dois meses a mastigar aquilo de uma forma muito aflitiva, que não devia ser assim, mas eu não sei trabalhar de outra maneira, só sob pressão.
V: E nunca tem quebras de criatividade?
MA: Não, porque eu nunca escrevi ficção, ainda não tive essa vontade, só escrevi ficção para televisão e argumentos, que são técnicas completamente diferentes. Mas, por exemplo, tenho uma coisa engraçada que é o método de trabalho…eu sei quanto é o tempo que tenho de preencher, qual o número de caracteres por cada capítulo, por espaços, por secções, por temas. Eu faço os cálculos todos, e depois ando ali a afinar, mais dez aqui, mais vinte acolá….e vou escrevendo. Eu acho que, por muita criatividade que tenhamos, há sempre uma componente técnica que é importante para tudo.
V: Mas o jornalismo e a escrita são mais uma técnica ou ciência que se aprende, ou é também uma coisa inata?
MA: O jornalismo, de todo, é uma técnica, nem é uma ciência nem uma arte, apesar de agora chamar-se Ciências da Comunicação. Tanto é uma técnica que eu aprendi sem ter que ir para a faculdade. Quando eu comecei não havia sequer nenhuma Universidade a ensinar jornalismo. A primeira, a Escola Superior de Comunicação, em Lisboa e aqui no Porto, surgem já estava eu há uns 3 anos a trabalhar em jornais. A técnica era-nos dada nas redações. Mas é óbvio que, por exemplo, eu quando comecei a trabalhar aqui na RTP, em 1986, nós tínhamos formação, num centro de formação.
O resto, nos jornais, era fazendo, íamos para a redação, "levávamos nas orelhas", havia sempre os mais velhos que diziam "essas vírgulas!" Davam-nos sempre os piores trabalhos para fazermos, os que eles não queriam (risos).
"Eu aprendi sem ter que ir para a faculdade. Quando eu comecei não havia sequer nenhuma Universidade a ensinar jornalismo" - Mário Augusto
V: Esse envolvimento na rádio, estava a dizer há pouco que começou com uma chamada para um amigo da Comercial?
MA: Não. A primeira vez que entrei numa rádio, televisão ou redação de jornal foi por causa do festival Cinanima, para falar do festival. Depois, como fazia coisas de cinema, escrevia e gostava muito dessas coisas tive a sorte...eu acho que a minha carreira faz-se de sortes múltiplas.
V: A sorte teve um peso muito grande?
MA: No meu caso sim, nas novas gerações já não vai poder ter, por uma razão: a sorte faz parte da vida de toda a gente, mas eu quando comecei era assim: vais ao galinheiro, agarras numa galinha, atiras, ela começa a voar, e constatas "olha, afinal voa!” (risos). Hoje em dia já ninguém agarra na galinha porque parte do princípio de que ela não voa.
V: Na altura havia mais espaço?
MA: Sim, quando vim para aqui trabalhar, em 1986, não havia ninguém da minha idade, havia um gap muito grande. Na redação, a geração mais nova a seguir a mim ou antes de mim tinha uma diferença de 10, os mais velhos já estão todos reformados.
Há um boom na comunicação a partir dos anos 80, e eu tive a sorte de estar no sítio certo à hora certa.
Mas eu trabalhava na Rádio Comercial Norte, onde é hoje a TVI: eu ia para lá aos sábados à tarde, em vez de estar nos copos com os meus amigos, ia trabalhar de borla, eu e mais dois ou três e estavamos a curtir música, fazer textos, e depois eles diziam-nos "não faças assim, faz desta forma", e era como se estivéssemos numa formação.
V: E agora já não há essa informalidade?
MA: Não, aliás, não há desde logo uma coisa tão simples: quem quiser vir estagiar para a RTP não pode, tem que vir estagiar pela escola, ela é que em função das notas vos envia para cá.
Costumo dizer sempre a malta mais nova: isto tudo é uma conjugação de vetores de um triângulo - sorte, talento e trabalho. E têm que estar afinados, não adianta ter muita sorte e não querer trabalhar; trabalhar muito e não ter sorte nenhuma; talento sem sorte também não; só trabalho sem talento nem sorte, é mais um no meio da manada. Todas essas coisas são sempre muito relativas.
V: Mas hoje em dia é mais difícil ter sorte?
MA: Eu acho que toda a gente tem a sua sorte, agora, é preciso uma conjugação de fatores. É mais difícil porque saem muitas fornadas, saem mais ou menos 500 a 600 alunos por ano com o curso de Ciências da Comunicação.
Só para vocês se rirem, na verdade, a vontade e a determinação no meu tempo eram uma coisa que agora é impossível que seja assim.
A minha história na televisão começou assim: vim ao Porto uma vez entrevistar uma pessoa da televisão, e no final da entrevista ela disse "eu no outro dia li uma coisa sua no jornal, escreve coisas de cinema, não escreve?". Eu disse que sim, e ela disse: "eu achei engraçada a forma como viu o filme" - porque na altura os críticos de cinema era aqueles intelectuais, mas eu nem sequer tinha conhecimentos para ser assim. E ela, então, perguntou se eu não queria fazer uma rubrica de cinema num programa, o "Às 10". Marcamos um dia para eu ir à RTP testar. Quinta feira seguinte, apareci lá, e o produtor disse-me que não tinha tido tempo: "para a semana, dá para vir outra vez?".
Na semana seguinte, a mesma história: "oh jovem, ainda não deu". E assim foi durante um ano, eu já chegava ali só para me divertir, já era conhecido, entrava nos estúdios, ia lá ver, às vezes a pessoa, o tal produtor, dizia "oh jovem, entre que já falamos", e esquecia-se de mim e ia-se embora (risos).
Outras vezes, havia aqui uns "velhos do restelo", chamavam-me ao gabinete e diziam-me: "acha que tem capacidade para estar aqui a falar como o Mário Dorminsky, o Luís de Pina, o Ramo Torres, os críticos de cinema que andam para aí?".
Mas eu pensava: "eles estão fritos comigo, enquanto não me disserem na cara para nunca mais aparecer, eu venho". E vim. Entretanto, o programa já estava no are passado um ano, cheguei cá um dia e percebi que estava uma grande azáfama na produção. O que tinha acontecido era uma greve de comboios que estava a impedir os convidados do dia seguinte de estarem presentes. Entrou tudo em pânico. Eu estava lá sentado a ver, passou o diretor, cumprimentou-me, voltou para trás e disse-me: "olhe, venha cá…arranja-me um filme para amanhã?" E eu disse que sim, era o "África Minha". Eu fui para o estúdio fazer um teste, depois fui a correr buscar o filme ao Porto em película de bobina - havia aqui telecinema - escrevi o texto, dei-o a ler a uma pessoa e acontece esta coisa inacreditável! E nem dá para imaginar o que eu terei feito, porque não há gravação, mas deve ter sido uma coisa macabra (risos). Isto foi dia 6 abril de 1986, e a partir desse momento eu nunca mais deixei de aparecer na televisão todas as semanas. Isto não é sorte?
V: Não é também talento?
MA: O talento vai-se burilando. É como os diamantes: quando saem de uma mina são uns calhaus, depois é preciso alguém para os pulir.
V: E na altura não teve medo?
MA: Era uma inconsciência total (risos). Mas aos 20 e poucos anos nós somos totalmente inconscientes, é a loucura, é o "vamos embora"! Agora, há coisas que eu não faço porque tenho medo de fazer mal.
V: E telejornais, nunca pensou fazer?
MA: Não gostava, não. Mas já fiz coisas inacreditáveis, fiz o Bom Dia durante mais de um ano - que é uma violência, vir para cá às 5 da manhã -, isto em 1989, e até tem piada. Eu acho que fiz tudo o que me apetecia fazer. Quando eu penso "aquilo até era capaz de ser giro", não sei porquê mas acaba por acontecer, por exemplo, já fiz a Volta a Portugal. Uma das coisas que eu estive quase para ter de fazer também foi substituir a Fátima Lopes na SIC, quando ela engravidou, e eu não queria, não gostava. Mas depois fiz outras coisas parecidas, o Verão Total e o Portugal no Coração…
V: Mas não gostou?
MA: Diverti-me imenso! Foi uma fase da minha vida. E outra coisa que eu estive quase para fazer foi o Quem Quer ser Milionário: estava na short list final, juntamente com a Manuela Moura Guedes. Mas em relação ao Verão Total, por exemplo, fui para lá obrigado, e andei lá no meio dos "pimbas", a divertir-me, e gostei! É divertidíssimo, mas há timings na vida, há tempos para tudo.
V: Mas a área em que mais se destacou acabou por ser no cinema. Lembra-se do primeiro junket que fez?
MA: Lembro, foi para a RTP, para essa rubrica que eu tinha no Às 10, e foi o "Cry Freedom", do Attenbourough, em Lisboa. Eu fui entrevistá-lo a um hotel. Depois, o primeiro "à séria" foi um filme do James Bond, com a Maryam d'Abo, em Lisboa também, em que o interlocutor dela era o Fernando Peça. E o primeiro junket "tcharan" foi em 1998/99 com um filme do 007 em Londres. Foi a primeira vez que eu lá fui, e aconteceu como com a televisão: eu pensei "ninguém me vai convidar para fazer mais coisas destas, deixa-me aproveitar, vai ser giro!". Na altura, estava lá o Álvaro Costa a viver, que trabalhava na MTV e éramos muito amigos por causa da rádio, fui na semana antes, estivemos lá a curtir. E eles mandam-me um relatório de tudo o que era preciso no junket, e havia uma gala, uma estreia, um jantar...tinha de levar smoking, e eu pensei: "não vou gastar dinheiro num smoking, era o que me faltava, venho cá só fazer isto uma vez" (risos), então levei o fato de casamento do meu pai, cheirava um bocadinho a naftalina mas servia bem!
E foi nessa gala que eu cometi uma das maiores gafes da minha vida, e acabou por ser por causa dela que eu comecei a escrever livros, porque houve um editor que ouviu esta história e achou engraçado publicar as minhas experiências com atores no estrangeiro.
Há uns 15 anos, fui ao programa "Cabaré da Coxa", e estava a contar histórias dos junkets e contei esta: eu em 1989 só tinha saído do país para ir a um festival de cinema em Zagreb, na ex-Jugoslávia, que era mais atrasada que Portugal. Então, chego a Londres, à gala, e na minha mesa ficou a Tina Turner, o Nigel Mansell...mas antes de irmos para as mesas, andavam lá uns mordomos com champanhe francês, patinhas de caranguejo, caviar, e eu, "armado em fino", vejo a tacinha de patas de caranguejo e penso: "espetacular, já vem ali tudo cortadinho". Começo a comer, apesar daquilo não ter quase nada para comer, mas passado um bocado vejo outro mordomo e como outra patinha, e só à terceira patinha é que eu vejo que andava lá outro com uma bandeja de trouxinhas de caranguejo, aquelas coisas da Iglo que antes não havia cá! Então, o que eu estava a comer eram as sobras das outras pessoas!!! (risos).
Mas tudo isso por esse junket ter sido o primeiro e nunca na vida ter pensado que iria continuar. Só que em 1992 faço parte da equipa de fundadores da SIC e o Emídio Rangel era um visionário, e eu comecei a fazer só junkets. Cheguei a ir a Nova Iorque 20 vezes ao ano, a Los Angeles 5 ou 6, agora não…
V: Agora é só por Zoom?
MA: Quase só, o país é muito pequeno. Depois da pandemia eles experimentaram, correu bem, e mantiveram. Ainda faço uma ou outra, mas eu antes fazia umas 30 viagens por ano, em hotéis 5 estrelas, e eu às vezes chegava aos hotéis e ainda tinha pocket money para gastar lá em refeições e assim, agora já não, isto acabou tudo.
V: Qual foi o junket de que mais gostou?
MA: Não é fácil, já fiz mais de 2 mil. Há alguns de que me lembro bem, como o do Jack Lemmon, que era um velhinho dos anos 40 e 50 do glamour de Hollywood, que deu uma entrevista brutal, ainda hoje tenho aquilo guardadinho, porque ele dizia coisas muito giras, normalmente os velhinhos gostam de partilhar histórias. Mas a Meryl Streep também é muito agradável de entrevistar, por exemplo, muito boa onda. Mas os junkets também mudaram ao longo dos anos, passaram a ser uma coisa muito pro, muito formatado, só uns 5 minutos, aquilo é uma falsa intimidade, nem é tanto um trabalho jornalístico, já é mais um trabalho de televisão.
V: Tenta quebrar isso e criar uma certa barreira?
MA: No meu caso, muitos deles já me conhecem (não somos amigos, mas de vista). Por exemplo, lembro-me que a primeira vez em que entrevistei o Leonardo DiCaprio ele tinha só 16 anos, e depois já o entrevistei umas sete ou oito vezes, e ele já me cumprimenta e conhece. Com a Meryl Streep também, eu no mesmo ano entrevistei-a 3 vezes, e quando entrei ela disse "quando é que foi a última vez que estivemos juntos?".
Mas, por acaso, havia um junket muito engraçado que eu fiz durante 5 anos, que era da Sony, em que nos mandavam para Cancún, no México, e ficávamos lá 10 dias no Ritz-Carlton, na praia, fechado só para jornalistas e estrelas, e de manhã víamos os filmes, à tarde fazíamos as entrevistas e à noite estávamos a jantar e a dançar na praia. Eu às vezes levava a minha mulher, porque podíamos levar acompanhante, e ela ficava na piscina e eles estavam lá com as famílias e os filhos. Esteve uma vez, por exemplo, a tomar conta do filho do Neil Patrick Harris porque ele estava aflito com as duas crianças (risos).
V: E houve com quem tivesse mantido ainda algum tipo de relação?
Especialmente com um realizador mantenho ainda o contacto, que é com o Paul Thomas Anderson. Estou a pensar ir a Los Angeles em breve e eu envio-lhe um mail e combinamos Já o trouxe duas vezes aqui ao Porto, andou aqui comigo, e foi inclusivamente com o Álvaro Costa, porque eu não sou muito notívago, ver um concerto dos GNR. Quando ele lança um filme novo manda-me os guiões assinados, por graça…
V: Existiu alguma entrevista que tenha corrido mal?
MA: Alguns são chatos, ou estão fartos daquilo, respondem só "sim" ou "não", o que às vezes destrói logo a entrevista, por isso é que aquilo é uma técnica, porque acontece muito a malta nova fazer os guiões da entrevista, com perguntas muito longas, e eles começam a olhar para o papel e respondem só "não, por acaso não acho" (risos). Portanto, o ideal é chegar lá e cumprimentar, etc., coisas que se aprendem com os anos.
V: Mas lembra-se de alguém que não desenvolvia muito?
MA: O Silvester Stallone, o Robert de Niro é terrível para as entrevistas, Steven Seagal também vi a ser uma vez muito mal educado e indelicado com um colega. Eles estão a ser pagos para fazer aquilo, faz parte do contrato do filme.
V: Mas esse modelo não se mantém tanto agora.
MA: Agora nem tanto, porque com isto do Zoom, ainda no outro dia estava aqui a fazer uma entrevista com o Vincent Cassel, francês, depois tive outra entrevista com um realizador que estava em Londres e à noite com uma pessoa na Califórnia. Dei a volta ao mundo e fiz três junkets num dia só com um computador.
Também no tempo da pandemia, com o "Luca", da Pixar, e esses junkets das grandes majors são muito engraçados porque são todo um circo, feitos por empresas contratadas para fazer junkets. Então, dei por mim em Espinho, a falar com um realizador que estava em Itália, um produtor da Nova Zelândia e com a entrevista a ser gravada em Nova Iorque através de uma empresa de Londres! E foi aí que eu percebi que se acabaram as viagenzinhas!
V: Mas essa digitalização, nomeadamente com o aparecimento dos streamings, altera também a cultura de ir ao cinema?
MA: Eu acho que há uma mudança total de paradigma em relação ao modelo de comunicação. Tu hoje tens de pensar de forma muito global, não podes pensar na tua varanda, isto é tudo transversal e global.
V: E os Óscares, lembra-se como foi a primeira ida lá?
MA: Também foi nessa maluquice…Em 1996 eu tinha feito a emissão com o Álvaro Costa na Antena 1: tínhamos sugerido fazer a emissão na rádio dos Óscares, que nunca tinha sido feita em Portugal, e a única hipótese que nós tínhamos para obter o sinal eram os retransmissores da televisão espanhola que havia em Ermesinde que transmitiam de forma pirata a televisão espanhola. Então, penduramos um televisor na Rua Cândido dos Reis, pela janela, e como não havia movimento nenhum nessa rua, que ao contrário de agora era uma zona de prostituição e uma penumbra total, vimos a emissão e fizemos.
Eu estava a montar a peça na videoteca e a pensar "isto deve ser giro fazer", e nesse mesmo dia disse ao Diretor de Informação que gostava de fazer. No ano seguinte, liguei para José Eduardo Moniz e perguntei se dava para ir aos Óscares, e ele deve ter pensado "deixa lá o puto tratar disto, eles vão dizer que não", e eu mandei um fax para lá, eles aceitaram e disse ao José Eduardo "agora temos que ir" (risos). E eu fui para lá pela primeira vez, nunca tinha ido a Los Angeles…sorte.
V: Como era o ambiente lá?
MA: As duas primeiras vezes foi mágico, a loucura absoluta, é como entrar num postal. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que fui aos Óscares, em 1991, quem ganhou foi o "Danças com Lobos" do Kevin Costner. E eu estava lá, na passadeira vermelha, e há um rapaz que vem, ninguém lhe liga nenhuma nem sabe quem ele é, eu reconheço-o: era o Antonio Banderas, e chamei-o, perguntei se estava a gostar e ele disse: "é a primeira vez que eu estou numa coisa destas, é a primeira vez que estou em Los Angeles e está a ser uma experiência inacreditável !". Os dois a falar em "portunhol" (risos). Ele, no ano seguinte, foi lá fazer um filme que se chamava Four Rooms e nunca mais saiu.
V: E passado tantos anos, o glamour do cinema mantém-se?
MA: Agora já não tem piada nenhuma. Eu não sei se vou conseguir ir este ano, e também já estou naquela fase em que quero começar a fechar dossiês, mas só se for por razões pessoais é que não irei, mas voltarei certamente para o ano, para fazer o meu finishing point.
V: Que filmes marcaram mais a sua vida?
MA: Ninguém tem os filmes da sua vida, nós temos filmes que nos encantaram em determinados momentos da vida devido ao contexto. Aliás, um filme é um contexto: começa por ser um pretexto, para irmos ver uma história, e depois é o contexto que faz com que ele seja eterno ou não, pode ser porque fomos com a namorada ou namorado, porque estávamos tristes e aquele filme deu-nos alegria, porque nos obrigou a pensar a vida e a mudar algumas coisas, porque fomos só para nos rirmos e saímos de lá todos bem dispostos…é isto que faz um filme.
Mas com esse filme, visto depois, fora desse contexto e desse período da vida, podemos pensar "como é que eu fui capaz de gostar disto". Isso acontece-me muito, filmes que eu vi com 16, 17 anos que quando saíam em Blue Ray eu ia logo comprar por terem sido marcantes, eu ponho a dar e penso "como é que eu gostei disto?".
V: E o contrário, também acontece?
Para o cidadão comum é mais provável, agora, para quem estuda cinema, tem de estar atualizado, perceber as coisas, ver a contextualização, é mais raro acontecer.
V: Tem algum filme que o tenha marcado devido a esse contexto?
MA: Sim, eu acho que há alguns filmes que são quase perfeitos, como o "Padrinho" I e II, são filmes perfeitos, são lições de cinema, aquilo está tudo no sítio. Os atores são bons, as histórias são bem escritas. Foi a loucura e paixão de querer que tornaram aquele filme naquilo que é, e é um dos meus favoritos.
Mas tenho outros favoritos que tenho "medo" de rever, o "Padrinho" revejo com frequência, o "Casablanca" também, o "Citizen Kane" é muito bem feito e bem contado mas não é fácil para rever com frequência. Mas o "Era uma Vez na América", por exemplo, acho que é um filme perfeito, está igual ao "Padrinho", mas tenho medo de rever muitas vezes e destruir o encanto.
V: Acha que há pessoas que o veem como modelo e sente essa responsabilidade?
MA: Não, porque eu sou um bocado irresponsável, nesse aspeto (risos), para ter chegado aqui da maneira que cheguei tenho o lado de "vamos indo, vamos vendo".
V: E ainda quer explorar muitas coisas, ou está mais a fechar pastas?
MA: Algumas pastas fecho, por uma razão de gradual fim de carreira, que espero que seja mais tarde. há coisas que eu não iria fazer aos 60 anos, E se tivesse começado a fazer aos 40 era outra coisa: eu comecei a fazer um programa de cinema aos 40 (que antes se chamava "35 mm" e depois passou a ser "Janela Indiscreta", porque já não havia películas em 35mm) e ainda o estou a fazer, nunca saiu do ar e quero fazer pelo menos mais 5 anos, para fazer 25 anos de programa. Logo se vê.
Mas gostava, por exemplo, de realizar alguma coisa, nunca o fiz ainda por falta de coragem, porque já tive condições para o fazer, mas gostava de fazer mais documentários.
Algumas coisas ainda vou fazer, outras já não, vou só ficar com a ideia romântica de as fazer.
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