Neste “Armageddon” não há bem contra o mal: Ricky Gervais só traz o último, e nós rimos
- Carolina Bastos Pereira
- 27 de dez. de 2023
- 2 min de leitura
Atualizado: 13 de jan. de 2024
O humorista britânico presenteia os subscritores da Netflix com o mais recente dos três espetáculos, “Armageddon”, que passou por Portugal e, como é habitual, traz ao de cima questões como o wokismo e a hipersensibilidade. Durante uma hora, ouvimos do “bom velho” humor, sem pedir permissão para rir.
"Eu tenho pensamento horríveis", começa por confessar o humorista que, o ano passado, lançou Supernature, o stand-up mais visto na Netflix, e autor de sucessos como "After Life" ou "The Office UK" – o argumento que deu origem à sitcom americana.
E parece ter mesmo: insultar uma criança sem braços, cuspir na cara de uma "idosa fofa" ou rir de um bebé com sida – "ainda bem que não fiz o sotaque" - são pensamento que discorrem proliferamente de uma mente sem filtros e completamente libertana.
E acabamos mesmo por rir, por vermos ali refletido o nosso subconsciente – "nem sequer podemos escolher os nossos pensamentos!" -, que de repente se tornam legítimos porque alguém com uma certa autoridade está mesmo em frente a uma câmara a dizê-lo: "Numa estação de comboios, quantas vezes já pensaram: ’E se eu empurrasse esse tipo?’".
É desta honestidade que uma cada vez menor parcela do ultrassensível cibermundo ainda tem necessidade, porque nos torna mais humanos, mais verdadeiros. Ricky Gervais traz ainda o que tantas vezes parece faltar aos milhentos tweets – agora "X", a letra mais censuradora do alfabeto: contexto.
Uma piada racista pode deixar de o ser, uma piada sobre o Holocausto também, se lhe for dado um contexto. Fazer uma piada não define um indivíduo nem a sua integridade – é isso mesmo, uma piada, tal como "Anthony Hopkins faz de Hannibal, e ninguém lhe pergunta se é canibal na vida real".
Houve quem não fosse prevenido – "vejo algumas caras desconfortáveis" -, e não se pode julgar. A cultura de cancelamento ainda está bem presente no nosso quotidiano, e transforma-se gradualmente numa cultura de humilhados e ofendidos, onde censuramos o nosso próprio pensamento e delimitamos-lhe barreiras. A criatividade esbate-se contra um fundo cada vez mais incolor, "dizem-nos que somos maus por nos rirmos".
"Despertar" para os problemas do mundo nunca significou deixar de rir do mundo, porque ele é estúpido, e nós também. Ser estúpido é ser humano, e ser humano é ter compaixão e sentido de humor, dois antípodas que sobrevivem muito bem lado a lado – de que serve sacrificar o último em prol do primeiro?
"Se woke ainda significa o que significava, que estás ciente do teu privilégio, tentas maximizar a igualdade e minimizar a opressão […], então sim, sou woke. Se agora woke significa ser um tiranete puritano e autoritário, que faz as pessoas serem despedidas por uma opinião ou um facto, não sou woke", conclui.
Ricky Gervais, que doou mais de 2 milhões de dólares do lucro do espetáculo para um abrigo animal, está tão "desperto" como esteve o ano passado. As piadas assemelham-se, é verdade, mas são a prova de que o mundo não mudou. E neste Armageddon, não há redenção para ninguém: "todos os risos são bons", sem que nos ponham do lado do bem ou do mal.
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