Porto/Post/Doc: um Cinema Falado em português, com muitos sotaques
- Carolina Bastos Pereira
- 26 de nov. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 13 de jan. de 2024
Ao longo de duas semanas, as salas do Batalha e Passos Manuel foram palco para o Cinema Falado, reservado à língua portuguesa, no maior festival de cinema documental do Porto. Houve analógico e digital, objetividade e metafísica e, acima de tudo, muitas histórias.

“Lucefece: where there is no vision, the people will perish”, de Ricardo Leite, sagrou-se o grande vencedor da categoria Cinema Falado, que integra a programação do Porto/Post/Doc desde o seu início, em 2014.
Ricardo Leite apresentou, nos dias 21 e 23 de novembro, a sua nova obra, produto de gravações analógicas, reveladas à mão pelo próprio realizador há mais de vinte anos.
Em "Lucefece", acompanhamos o percurso existencial do artista desde a infância até aos dias de hoje, e ao longo do filme é-nos revelada, de uma forma por vezes crua e por outras introspetiva, os acontecimentos que marcaram a vida de Ricardo Leite, desde a morte da irmã à prisão do pai ou nascimento dos filhos, e a influência destes na sua própria espiritualidade e identidade.
Na entrega do palmaré, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores, esta referiu a "materialidade química, quase alquímica, física do próprio filme", já que as imagens, coloridas e simbólicas, foram feitas à mão, bem como a "extraordinária originalidade na sua viagem introspetiva que vai além, atrás, acima dele".
Como menção honrosa, foi ainda distinguido "2720", de Basil da Cunha, uma obra que explora a vida na Reboleira, em Lisboa, num labirinto de ruas e pessoas, lugar já explorado pelo realizador, por ser lá que vive durante metade do ano.
Este ano, foram 13 os filmes em língua portuguesa em exibição, mas nem todos obedeceram estritamente ao pressuposto. Exclusivamente falado em alemão, "Naquele dia em Lisboa", de Daniel Blaufuks, é um dos exemplos que o comprovam.
A curta-metragem, que roda exclusivamente uma película descoberta pelo realizador – tal como "Onde Está o Pessoa", de Leonor Areal - de 1940, retrata a realidade dos refugiados da Segunda Guerra Mundial. No entanto, Blaufuks não é o único a focar-se no tema da imigração e interculturalidade.
"As Melusinas à Margem do Rio": à margem do prémio, mas não em Lisboa
Melanie Pereira, realizadora de "As Meluzinas à Margem do Rio", uma longa-metragem sobre a integração - ou falta dela - dos imigrantes no Luxemburgo, arrecadou o maior número de prémios no DocLisboa, mas nesta competição ficou de fora dos palmarés.
À conversa com o VÉRTICE, a realizadora luso-luxemburguesa contou que ainda tem "um projeto em mente sobre a emigração portuguesa", mas que está "muito mais tranquila" depois de ter feito esta longa-metragem: "sinto que deitei cá para fora coisas que precisava de expressar.
No filme, Melanie é realizadora, atriz, narradora e entrevistadora de outras quatro mulheres, nascidas ou crescidas no Luxemburgo, com pais nascidos noutros países.
O documentário gira em torno das dificuldades sentidas pelas mulheres em adaptarem-se a uma nova cultura, identificando-se simultaneamente com outras, e no papel que assumem numa sociedade luxemburguesa estratificada e elitista.
A escolha exclusiva de mulheres surgiu para Melanie com "naturalidade": Eu gosto sempre de dar voz às mulheres. […] Continua a não haver igualdade, e gosto de trabalhar com as mulheres porque me identifico mais com as experiências e sinto mais naturalidade, é uma obsessão minha, do meu ativismo".
"O João Canijo também só trabalha mulheres e acho que nunca lhe perguntam porquê, é uma opção dele, e não é por eu ser mulher que quero dar-lhes voz”, acrescenta.
No entanto, é também por uma necessidade de documentar as suas próprias experiências que optou pelo tema da busca da identidade numa sociedade multicultural, mas discriminatória: decidiu "trabalhar o autobiográfico", porque "aquilo que sei defender melhor é a experiencia que eu tive".
Em relação ao cinema luxemburguês, "muito industrial e ainda focado em temas como a Segunda Guerra Mundial", considera os filmes portugueses "muito autorais", mas sem que isso constitua um entrave, já que "tem os seus meios de distribuição, não deixa de ser um cinema importante, que tem o seu público e é seguido".
O obstáculo, no entanto, está no apoio à produção, de que "não se pode queixar" neste caso concreto, mas que é pouca no país: "O orçamento que é feito para a cultura não é um serviço público, precisamos de mudar isso para que possamos fazer os filmes que queremos sem ter essa preocupação constante".
Melanie promete a inserção de "As Melusinas à Margem do Rio" na plataforma de streaming HBO num futuro próximo, bem como o começo de uma nova produção, um filme biográfico sobre a avó.
Um olho cá dentro, outro lá fora
A seleção lusófona do Porto/Post/Doc este ano não incluiu apenas filmes que retratam a realidade portuguesa ou individual: também houve quem documentasse a realidade de comunidades inteiras, como o fez Melanie Pereira, mas também realizadores Vinícius Girnys ou Margarida Gramaxo.
Vinícius é brasileiro, e passava férias em Ponta Negra, uma aldeia piscatória em Paraty, numa época em que quase não havia lá turistas. O motivo para isso era um só: Ponta Negra não tinha eletricidade, e a vida era feita à luz das velas.
Quando Vinícius ouviu falar da chegada da luz, decidiu levar uma equipa para junto desta comunidade, onde acompanharam, ao longo de seis anos, a chegada da luz e, em consequência, do turismo ao local.
O resultado foi "Samuel e a Luz", uma longa-metragem quedocumenta a história íntima de uma família que teve de se adaptar a uma nova vida após a chegada da eletricidade.
Olívia Pedroso, diretora de fotografia, conta ao VÉRTICE que a introdução na comunidade, que nunca tinha visto câmaras de filmar, foi feita aos poucos: "nós gravávamos cerca de duas horas por dia, no máximo, porque o resto do tempo nós conversávamos sobre o filme e com eles, para estarmos mais próximos e não ser apenas aquele olhar externo que conta algo que não nos pertence".
O filme expõe ainda alguns problemas pessoais da família, como o patriarcado e a secundarização da mulher, o que "levantou muitas questões morais, sobre como devíamos expor ou não expor questões íntimas de família".
Apesar disso, "havia muita coisa que nos contavam fora das câmaras, mas depois propunhamos que o representassem e eles improvisavam". Olívia acredita, mesmo assim, que "há um poder da ficção dentro de um documentário", existindo cenas que requerem planeamento e re-gravação.
Também Margarida Gramaxo descobriu Lindo, um pescador subaquático com quem fez amizade, na ilha de Príncipe, em São Tomé e Príncipe, e decidiu contar a sua história num filme homónimo. "Lindo" é um documentário sobre a caça das tartarugas, que passa a ser proibida na ilha, mas que serve de sustento aos locais.
Levando os próprios pescadores a discutir assuntos relacionados com sustentabilidade e o futuro do planeta, o filme, repleto de longas imagens subaquáticas que apelam à reflexão, retrata também a mudança dentro de uma comunidade pouco instruída, mas surpreeendentemente sensível.
A realizadora, após a exibição no Batalha, contou ao público presente na sala que trabalhou "muitos anos sem investimento", mas que "não conseguia largar esta história", e "cresceu com o filme": "a mundança é sempre um tema muito interessante", comenta.
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