Portugal, “o povo apagado e vil”
- Carlota Nery
- 19 de dez. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 13 de jan. de 2024
Crónica. "Há uma insuficiência nas palavras dos portugueses que não lhes projeta voz alguma. Não somos o que dizemos, infelizmente não. Somos o crédito que nos dão. E neste país há muito pouco respeito e empatia".

A tristeza que hoje cai sobre o povo português é a mesma que um dia Camões chamou de “apagada e vil” por carecer talvez de melhores palavras que o descrevessem.
É a mesma tristeza de quem se vê sem horizontes, de quem suspeita que a prosperidade não passa da promessa de um mito e que as aparências dela serão bem pagas num futuro que não vem longe. Fomos desde sempre habituados a um sentimento generalizado e romantizado de uma "saudade" daquilo que por pouco não vivemos, e isso conformou-nos à mais reles das condições em sociedade.
O Estado do Português diria que se compara ao de um adulto que sabe perfeitamente que já não é mais criança e que já nada se remedeia limpando a boca à manga da camisola. A boca está lá, a manga também. Mas algo as separou para sempre.
Portugal é uma boca suja, muito suja que não tem mais onde se limpar. E a porcaria só se acumula. Somos governados por imbecis que não perguntam ao sonhador o que ele sonha tampouco ao pensador o que ele pensa.
Fomos desde sempre habituados a um sentimento generalizado e romantizado de uma "saudade" daquilo que por pouco não vivemos, e isso conformou-nos à mais reles das condições em sociedade.
Ora, deixem-me que vos diga: Tudo o que bom português diga, principalmente se político, não passa de cantiga, toada para adormecer. E há muito tempo, diria eu, que andamos a dormir.
Ora o português canta de forma muito suspeita, ora está a ser embalado pela canção. E este é um sono que vem desde a esperança da chegada de D. Sebastião, imortalizou-se com Os Lusíadas, passou pela Mensagem e perpetua-se até hoje das mais variadas formas.
Convenhamos, este país dá a ilusão de um país real que não vale muito mais que uma maioria silenciosa. É que nem sequer existe o ímpeto do protesto e da indignação. O indivíduo português é perito a queixar-se e a fazer muito pouco sobre isso. Esta crónica será isso também? Talvez.
Mas se posso usar a força das palavras, então deixem-me que vos diga:
Está aí o povo português. Chamem-lhe o que quiserem conforme os humores. Mandem-no emigrar, batam palmas e continuem a exaltar os descobrimentos quando nada havia para descobrir. Lisonjeiem-no e continuem a impelir criancinhas com os cravos e beijos ensinados.
Tudo é um truque de linguagem e crescemos no seio da esperança de um país que não é o nosso. Seria de esperar que desta crise profunda que dura há demasiado tempo, nascessem as ideias novas, as reivindicações certas. Mas é uma crise profunda, que ultrapassa a economia e chega à ética e à moral. E mesmo quando as coisas parecem melhorar, raras são as vezes que não de um “mito”, a historinha preferida do português.
E parece não haver Um Tempo para nós. Porque o impudor é muito, tão maltratada a verdade, tão ridicularizada a justiça e o valor humano.
Como disse Saramago no Manual de Pintura e Caligrafia : “Agora mesmo o mundo trasnformar-se lá fora. Nenhuma imagem o pode fixar: o instante não existe.”. E Portugal é uma nação que parece ter ficado estagnada num instante qualquer que se afasta muito daquele que se desenrola agora.
E parece não haver Um Tempo para nós. Porque o impudor é muito, tão maltratada a verdade, tão ridicularizada a justiça e o valor humano.
O mundo mudou e Portugal acompanhou como pôde porque nós não soubemos mudar doutra maneira. E agora transporto as ideias de Saramago em “A Segunda Vida de Francisco de Assis” que Fernando Pessoa já cantava: “Agora teremos de mudar-nos a nós próprios para que o mundo e Portugal possa ser mudado”.
Todos deixamos no mundo o que no mundo criamos. Tudo é conforme o que somos, e viver num país como Portugal diz muito sobre nós. A mesma pessoa, habitante português, se nascesse noutro país, não seria aquilo que é hoje. E Portugal não seria o que é hoje se não fossemos nós a habitá-lo.
Mas quem anda aqui há muito, até nos piores males arranja sempre uma porção de bem. E isto é o suficiente para que nos levem aos ditos males com bastante paciência. De braços bem abertos, porque habituaram-nos a isso mesmo. A esperança e indignação dos portugueses só habita nas suas cabeças, não há uma realidade fora delas, não há uma projeção, um resultado real disso.
A crise do povo português é um reflexo da dependência do país em relação a fatores externos, da falta de investimento em áreas fundamentais, da falta de justiça social e de um sentimento generalizado de conformismo sustentado por bases e pilares altamente manipuladores.
Há uma insuficiência nas palavras dos portugueses que não lhes projeta voz alguma. Não somos o que dizemos, infelizmente não. Somos o crédito que nos dão. E neste país há muito pouco respeito e empatia.
Ficamos sempre pelo meio da explicação, a vaguear por ela, que acabamos por viver longe de qualquer entendimento. Porque entender realmente o que aqui se passa, seria doloroso demais. E resta-nos um silêncio.
Mas hão de atirar-te terra à cara quando falares disto, afogarão tuas palavras antes de serem ouvidas e falar-te-ão da coragem dos Descobrimentos e da tão linda Revolução dos Cravos.
Autoritárias, paralisadoras, circulares, elípticas, as ideias que o povo português assenta, também denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado a nossa vivência. Enchem-nos com ilusões do passado na tentativa de criar esta ideia de nacionalismo coletivo, quando na verdade precisamos é de condições de vida melhores e menos incompetência.
Mas hão de atirar-te terra à cara quando falares disto, afogarão tuas palavras antes de serem ouvidas e falar-te-ão da coragem dos Descobrimentos e da tão linda Revolução dos Cravos, ó, meu deus.... a tão linda Revolução dos Cravos! Colocar-te-ão sempre os olhos no passado, tão doente e excessivamente que não haverá futuro.
Portugal é um espelho velho com falhas no
estanho e sombras paradas: Há uma nuvem
sobre a testa, um apagão no lugar da boca,
um vazio onde os olhos deviam ocupar.
Portugal é esta imagem que fazemos dela para
que nos seja possível reconhecer como nosso.
Portugal é uma estátua de argila. O vento passa e
leva-lhe, pouco a pouco, partículas, grãos. A
chuva amolece as feiçõe, retira-lhes a força e a
expressividade.A cada minuto, o que era deixa de ser e da estátua não vai restar mais do que um vulto abstrato. Por isso deveríamos perguntar-nos quem, de nós, ou em nós, tem Portugal, e que Portugal é esse.
Porque a moral, meus senhores, é algo que precede o povo Português, mas que este tristemente e enganado, confundiu com o sal do mar em que se aventurou. Sem dúvida Álvaro de Campos tinha razão quando afirmou: “Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer!” Certíssimo, sem dúvida. Mas não desta maneira.
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