Quem foi Odete Santos: uma vida dedicada à luta pelos direitos e à afirmação da igualdade
- Carlota Nery
- 31 de dez. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 13 de jan. de 2024
Obituário. Odete Santos, figura proeminente da história política portuguesa, faleceu aos 82 anos, mas deixou um legado marcante. Uma vida pautada pelo compromisso com a justiça social, a defesa dos direitos dos trabalhadores e a busca pela igualdade.
Uma vida que se marcou por um compromisso incansável com valores próprios e identitários, que embora fossem sob a bandeira comunista, transcendiam as fronteiras partidárias. Como uma das primeiras mulheres parlamentares no período pós-25 de abril, tornou-se uma figura relevante na luta pela valorização de todas as mulheres que representava, oferecendo-lhes apoio e expressando essas vozes há muito recalcadas.
Nascida em 1941, em Pêga, Odete estabeleceu-se em Setúbal, onde moldou o seu percurso na política. Com atuação no Parlamento, ao longo de três décadas, destacou-se pela inclusividade nos debates sobre direitos das mulheres, cultura e igualdade de género.
Militante do Partido Comunista Português desde 1974, Odete foi uma das pioneiras na defesa de direitos fundamentais das mulheres, contribuindo para a legislação sobre a despenalização do aborto e proteção contra a violência doméstica.
A atuação política de Odete Santos foi marcada por um discurso contestatário e opositor, pelo qual ficou gravada na memória dos portugueses. A sua obra "A Bruxa Hipátia – O Cérebro Tem Sexo?" (2010) quis desmistificar muitos estereótipos sobre mulheres na sociedade.
Para além do trabalho político, Odete Santos era formada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Durante a crise académica, Odete permaneceu ativa nas iniciativas grevistas, envolvendo-se nos movimentos estudantis: uma determinação e convicção que já antecipavam seu exercício profissional. Embora a sua ligação ao partido tenha esfriado após a conclusão dos estudos, retornou com força após a Revolução de Abril.
Foi autora da tragicomédia "Em Maio Há Cerejas" (2002) e da coleção de poesia "A Argamassa dos Poemas", numa coletânea de celebração de alguns dos seus autores favoritos. O seu envolvimento no teatro foi uma válvula de escape da vida política e jurídica. Encontrou no teatro uma forma de se desligar da própria realidade, interpretando personagens diversas.
A antiga deputada estreou-se nos palcos em 1966. Voltaria a participar numa peça em 1991, e, em 1999, protagonizou "Quem tem medo de Virgínia Woolf" numa encenação do Teatro Animação de Setúbal.
O PCP destacou a trajetória da ex-deputada como uma figura de relevo na construção do Portugal pós-25 de abril. Para além do engajamento político, Odete Santos era conhecida pela participação ativa nos plenários da Assembleia da República, abordando temas que iam desde os direitos das mulheres até à cultura.
É reconhecida dentro do partido pela análise profunda dos temas e dedicação aos ideais progressistas. O Presidente da República lamentou a perda, destacando-a como uma das deputadas mais carismáticas da Assembleia da República.
“E eu pergunto aos economistas, políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?” - Odete Santos
Citando o escritor Almeida Garret, na sua última e célebre intervenção como dirigente do Comité Central do PCP, em 2012, Odete perguntou aos economistas, políticos, aos moralistas, se "já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”
O seu percurso político iniciou-se na II Legislatura, em 1980, estendendo-se até 2006, quase atingindo 27 anos. Durante esse período, recebeu o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique em 1998. Também ocupou a presidência da Assembleia Municipal de Setúbal em várias ocasiões (2001 e 2009) e dirigiu a Organização Regional do distrito. Sua ligação com Setúbal foi vital em suas causas políticas. Foi vereadora do pelouro da cultura em 1974 até 1976 e, posteriormente, membro da assembleia municipal. No âmbito do partido, teve papel ativo no Comité Central, de 2000 a 2012.
A memória de Odete Santos transcende as fronteiras políticas. É lembrada e acarinhada por um amplo espetro da sociedade, dentro e fora do partido. A sua influência estendeu-se para além das bancadas parlamentares e dos círculos partidários. Tornou-se figura inspiradora e referência para gerações comprometidas com a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
O seu compromisso com os trabalhadores, a sua ligação com a juventude e o seu papel determinante na conquista de direitos para as mulheres são alguns dos contributos que Odete Santos deixa para a história política de Portugal.
A vida de Odete Santos e o legado político e cultural que deixou fazem dela uma "figura marcante na construção do Portugal de Abril e na afirmação dos direitos dos trabalhadores e da igualdade e a emancipação da mulher", escreveu o PCP na página de Instagram.
Com base nos ideais marxistas e comunistas, sempre com a amplitude de voz que lhe foi característica, tornou-se uma figura marcante em assembleias, comícios, plateias e ruas. Adotada pela cidade de Setúbal, Odete Santos procurou fazer do Sado uma fonte de apoio para todos.
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