"Religião Woke": uma guerra da intolerância
- Luizi Duarte
- 26 de dez. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 13 de jan. de 2024
O livro Religião Woke, do filósofo francês Jean-François Braunstein, que chegou a Portugal através da Editora Guerra e Paz, faz uma crítica ao movimento woke, equiparando-o a uma religião. O autor busca explicar a origem, motivação e propósito desse fenómeno, resvalando, também ele, para a intolerância.
Apesar de ser um livro com uma abordagem filosófica, a leitura de Religião Woke é de fácil compreensão, uma vez que o autor utiliza recursos como analogias e comparações, sempre de modo a relacionar os pressupostos com eventos históricos e também com temas atuais. Contudo, apesar da escrita descomplicada, o livro conta com várias contradições ao longo das páginas.
Um exemplo dessa contradição pode ser visto no segundo capítulo, intitulado "Uma religião contra a realidade", onde o autor discorre sobre a teoria de género. Ao longo dos temas abordados nesse capítulo, o autor cita o psicólogo John Money e um dos seus casos mais conhecidos: "John/Joan".
No final da década de 1960, ele aconselhou os pais de um menino chamado David Reimer a criá-lo como uma menina, após uma circuncisão mal-sucedida que o deixou sem pénis. O caso foi apresentado como um sucesso de reatribuição de género, mas relatos posteriores revelaram que a criança não se identificava como feminino e, em última instância, enfrentou um sofrimento psicológico significativo. O caso levantou preocupações éticas e críticas sobre a abordagem de Money.
Braunstein pontua que o caso é um fracasso, uma vez que o psicólogo "tinha exercido fortes pressões sobre a criança na tentativa de validar a sua teoria" de que era “possível modelar a identidade sexual da criança, qualquer que seja o seu sexo biológico de nascença em função da maneira como foi educada”. Com isso, o autor deixa claro que não se pode forçar uma criança à mudança de sexo.
Contudo, nas páginas seguintes, escreve que "ao denunciar a atribuição [de sexo] à nascença e ao incitar as crianças e aos adolescentes a desconstruir o seu género, conseguimos introduzir a dúvida em suas mentes", ou seja, claramente uma contradição com a sua própria conclusão sobre o caso de Money.
Braunstein afirma também que "este mundo do género, em que as pessoas se identificam independentemente da realidade corporal, é um mundo ilusório", no entanto, apesar de defender a ciência, desconhece ou desconsidera que a transgeneridade é uma questão biológica.
Acerca do assunto, o psiquiatra Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Género e Orientação Sexual do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas explica, em entrevista ao Estadão, (Jornal Brasileiro) que ser trans não tem a ver com o meio, mas sim com a formação da criança ainda no útero: “Por volta da décima semana de gestação, as células que vêm formando o feto desenvolvem a genitália. A princípio, pénis indica um menino e vagina, uma menina. Depois, pela vigésima semana, a área do cérebro ligada à identidade de género começa a formar-se. Se coincidir com o sexo biológico, nascerá uma pessoa cisgénero, ou seja, que se reconhece no sexo previamente formado. Se houver incongruência, nasce uma pessoa transgênero.”
Outra contradição que pode ser encontrada no livro é o fato de o autor citar e julgar vários casos onde profissionais perderam os seus trabalhos por terem opiniões contrárias às teorias woke, como casos de censura, porém, ao contar exemplos sobre empresas que perderam contratos por concordarem com o wokismo, o discurso é de validação com a justificativa de que o acontecimento foi resultado de um arrependimento acerca do desempenho em prol do wokismo, e não uma censura.
Para além disso, Jean-François levanta também questões sobre a teoria crítica da raça, e a partir disso aborda o tema de privilégio branco, e afirma que essa é uma "arma para todas as ocasiões deste novo anti-racismo". O autor centra-se em apontar que os brancos são acusados desse privilégio, porém, não confirma ou nega que ele existe, deixando a sustentação do argumento rasa, uma vez que não se pode compreender se essas “acusações” são ou não infundadas.
Jean-François tece também fortes críticas ao modo como os wokistas não aceitam ser contrariados. No segmento "Os Puros e Impuros" o autor escreve que "o essencial é não encetar, em caso algum, diálogo com a pessoa censurada: é isso que pretende a cancel culture, a anulação da própria existência de inimigos que, para os wokes, são a personificação do mal".
Contudo, ao longo do livro fica evidente que ele próprio não tem interesse no diálogo, uma vez que taxa todo o discurso woke como causador dos males da sociedade atual. Braunstein aponta erros e ridiculariza o movimento, porém não traz alternativas viáveis para melhoria do cenário atual. E com isso o seu discurso preconceituoso fica protegido pela máxima de que os wokistas são extremistas e acusam tudo e todos, logo, qualquer pessoa que aponte o preconceito no seu livro está a ser um fanático.
A partir desses exemplos fica evidente que o livro conta com várias contradições, o que mina a credibilidade da mensagem que o autor está a passar. Um livro bem sucedido precisa de manter uma lógica interna consistente, especialmente quando se tenciona "denunciar uma nova religião que destrói a liberdade".
A partir dos pontos abordados é possível perceber que a temática do livro é de extrema relevância, porém, é fundamental ter uma leitura crítica, que busque uma abordagem equilibrada ao avaliar perspectivas divergentes, reconhecendo as complexidades envolvidas nas discussões sobre justiça social, cultura e conhecimento.
Esse trabalho envolve considerar diferentes pontos de vista e promover o diálogo construtivo para compreender as preocupações e aspirações das diversas comunidades e indivíduos envolvidos.
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