"É um bocado triste": bairro da Lomba despede-se das velhas ilhas
- Jornal Vértice
- 3 de jan. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 15 de jan. de 2024
Esta é a segunda parte de uma grande reportagem sobre as ilhas do Porto. Clique aqui para ler a primeira parte e aqui para ler a terceira.
Nas ilhas da Lomba, no Bonfim, aguarda-se desde 2022 um futuro incerto. "Vai tudo abaixo", para construir de novo 47 habitações. Unidos há décadas por um sentido de vizinhança e amizade, os moradores ficam agora "separados uns dos outros".

Desce a rua de Vera Cruz, na Lomba, uma mulher de meia-idade. Vem devagar, entra na mercearia. É uma manhã cinzenta de novembro, está quase na hora de almoço e a loja está vazia.
A conversa com a dona é já habitual, e vai desde o preço dos produtos até às pessoas do bairro, porque há sempre quem tenha "remodelado a cozinha" ou enviado uma "fotografia da neta pelo Facebook".
Fernanda sai, então, da mercearia, compras feitas, e vai até casa, no cimo da rua, a que tem "as rosas mais lindas", orgulha-se, por as ter plantado a mãe em 1969. Pelo caminho, conta como foi parar à Lomba, que "não é um bairro, mas sim uma rua", e como conhece de perto as "ilhas" da cidade, ainda que não more numa.
Nos anos 70, brincava nas "casinhas pequeninas" da Lomba, perto de Campanhã, para onde os pais, operários de fábrica, se mudaram no final da década de 60. "Quando era pequena, ia brincar lá para dentro [dos bairros], e via as condições em que aquelas pessoas moravam", comenta, "a casa de banho era lá fora, partilhada, as condições eram muito más".
Não são águas passadas: a situação mantém-se ainda para algumas das muitas ilhas, conjuntos de casas tipicamente com menos de 20 metros quadrados e com um pátio ou corredor partilhado, que existem nessa zona do Bonfim.
Mas, agora, a Lomba "vai toda abaixo", conta Fernanda, e "houve lágrimas": a Câmara Municipal do Porto comprou aos senhorios as casas e submeteu o bairro a uma reabilitação sustentada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que vai afastar os moradores da Lomba por mais de dois anos. Quem ajuda a contar a história é Max, um amigo que encontra pelo caminho, que mora na Lomba desde 1983 e com quem a conversa já está a roubar a hora de almoço a Fernanda.
Embora more num bairro em tudo semelhante aos mencionados, Max recusa chamar-lhe de ilha, e acrescenta que a sua casa está "toda arranjada", e quem "não acredita pode ir lá ver".
Num bairro onde menos de metade das casas estão habitadas, Max orgulha-se da humanidade que consegue dar à sua. Nestes lugares, a vida faz-se muito em comunidade, e é do lado de fora da casa onde guarda algumas roupas, calçado, cobertores, guarda-chuvas e vasos de plantas. "Uma vez já fui assaltado", confessa.
A casa de Max não é abrangida pelas obras, mas há quem tenha casas "que são um espetáculo e estão bem remodeladas", contam os amigos, e que vão também ser derrubadas, já que foram compradas pela Câmara e estão incluídas na área do projeto.
"É o Porto Vivo!", grita, irónica, uma voz do outro lado da rua. É o senhor Avelino, que mora há 23 anos na Lomba com a mulher, Maria de Lurdes. Estão os dois à janela, mas a conversa interessa-os e por isso juntam-se: "temos de sair em janeiro ou fevereiro, ainda não nos disseram para onde vamos".
Maria de Lurdes e Avelino pagam uma renda que se vai manter a mesma depois das obras que vão melhorar a casa onde moram. "Mas eu nem precisava de obras nenhumas, tenho tudo o que é preciso: uma sala, uma cozinha, um quarto e uma casa de banho", lamenta Maria de Lurdes. "Para que é que nos vão tirar daqui?", acrescenta o marido.
Pela janela, atiram a folha que lhes entregou o Porto Vivo, a empresa que está a tratar do projeto, que não é mais que uma página rasgada do Jornal de Notícias: "só nos deram isto, mas o senhorio nem nos disse que tinha vendido a casa, só quando eles vieram falar connosco é que soubemos", dizem.
Para que não haja dúvidas de que estão "muito bem aqui", convidam quem quiser a entrar. Na cozinha, já se assam as sardinhas para o almoço, e o cheiro invade a casa. É por ali que se sai para o pátio, onde espreita, curiosa, a vizinha Delfina.
Nascida na Lomba, aí vive desde sempre, mas é agora, aos 84 anos - "sou a mais velha disto tudo" - , que vai "sair daqui para fora". Apesar de tudo, admite, "a casa precisa de obras, porque sabendo que isto vai abaixo nem tenho feito obras nenhumas".
Na parede da sala de Delfina, veem-se muitas praias: "são as minhas férias, um dia estou nas Maldivas, no dia seguinte vou para Marrocos, sou eu que escolho", ri-se. Na verdade, os posters afixados escondem uma "parede que foi abaixo", tendo ficado deteriorada sem reparo. O sol está bem alto, mas dentro de casa, fotografias só com flash: "isto é escuro, não tem luz", diz.
Lá fora, na rua, vão-se já ouvindo conversas sobre o futuro do bairro: "isto vai ficar melhor, como ficou na Bela Vista", comentam uns. "Eu vou para a Foz, vista para o Douro e tudo!", alegram-se outros, que já têm destino definido e mostram fotografias.
"Mas também...que alternativas tínhamos se fôssemos contra?". O comentário é de Américo, que, aos 73 anos, vive desde que nasceu numa ilha que parece abandonada - mas não está. As condições são más, mas as alternativas não lhe parecem positivas: "Espero que isto mude, mas agora não vou para melhor, espera-me o Lagarteiro e esse tipo de bairros", lamenta.
"Há pessoas que já sabem para onde vão", comenta Delfina, mas não é o seu caso. Tem um cancro que precisa de ser tratado em França, e é para lá que vai, por agora. Vai ter saudades do ambiente bairrista: "conhecemo-nos todos, somos amigos, vamos à Associação de Moradores tomar café...agora ficamos desligados uns dos outros". Quando voltar do estrangeiro, não sabe o que a espera. "É um bocado triste", confessa.
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